Neste ano, se todas as previsões se confirmarem, os produtos químicos ultrapassarão o açúcar e se tornarão o principal item da pauta de exportação de Pernambuco. Passarão a constituiir 24% das vendas pernambucanas ao exterior (contra 21% do açúcar). Até o ano passado, os produtos químicos não eram mais que 8% das exportações do Estado.
Esse salto, que injetará US$ 106 milhões no PIB local, representa uma virada histórica. A economia e a sociedade pernambucana foram erguidas com base da cana-de-açúcar e nas relações aristocráticas semifeudais tão bem relatadas em Casa Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, e Morte e Vida Severina, do poeta João Cabral de Mello Neto. Será um marco também da renascença econômica de Pernambuco, depois de mais de três décadsa de estagnação. Nesse período, o Estado perdeu a liderança do Nordeste para a Bahia e passou a ser ameaçado pelo Ceará.
A projeção alcançada por Pernambuco em produtos químicos é resultado da multinacional de origem italiana Mossi&Ghisolf, a maior fábrica do mundo de resinas PET, insumo usado em embalagens. Em fevereiro, ela inaugurou no Estado um empreendimento de R$ 700 milhões que servirá de âncora a um emergente pólo têxtil e petroquímico no complexo portuário e industrial de Suape, no litoral sul do Estado. A instalação do pólo petroquímico e têxtil e apenas uma parte do redesenho radical que a economia pernambucana está atravessando. Essa transformação tem ainda mais tr6es pilares: 1) a construção da refinaria Abreu e Lima, da Petrobras; 2) a constituição de um pólo de fármacos e hemoderivados; 3) a instalação do estaleiro Atlântico Sul.
Esse processo está no começo, mas as perspectivas são promissoras. Até 2015, estima-se que Pernambuco receberá, entre investimentos públicos e privados, R$ 34 bilhões. Isso deverá propiciar, no futuro, taxas de crescimento acima das nacionais. Um estudo do Sebrae projetou uma taxa de crescimento do PIB pernambucano de 7,32% ao ano para o período entre 2011 e 2020, contra 5,25% para o Brasil. O mesmo estudo afirma que a renda per capita do Estado deverá subir dos atuais R$ 7.213 para R$ 15.050 até 2020 – aproximando-se do índice do Distrito federal, hoje maior renda per capita do país (R$ 15.030).
A recém-adquirida pujança pernambucana é resultado da obra de sucessivos governos estaduais que decidiram investir na construção, em Suape, de um porto de primeira classe, aproveitando a posição geográfica privilegiada em relação à Europa, África e Estados Unidos. Hoje, Suape, controlado pelo governo de Pernambuco é considerado o melhor porto público do país. A virada de Pernambuco a uma conjunção política favorável, marcada pela chagada ao Palácio do Planalto do pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva. “O alinhamento político com o governo federal é um dos fatores que explicam o boom pernambucano”, diz Jorge Côrte Real, presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco.
Uma ajuda decisiva do governo Lula a Pernambuco foi a construção da refinaria Abreu e Lima, antes disputada por 14 estados. Com investimentos de US$ 5,5 bilhões, a refinaria terá, a partir de 20110, capacidade para processar 200 mil barris de petróleo por dia e produzirá óleo diesel e matéria-prima para o pólo petroquímico e têxtil. Além da italiana M&G, o pólo deverá contar com duas indústrias de fios de poliéster, 250 malharias e tecelagens e três fiações de algodão. Pelos planos iniciais, a refinaria deverá receber também investimentos da PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo. Mas turbulências na relação com Hugo Chávez colocaram em dúvida a participação venezuelana no empreendimento. As obras de terraplanagem começaram há um mês com a presença de Lula a bordo de uma retroescavadeira.
O empurrão do governo Lula ajudou também no desenvolvimento do pólo de medicamentos e hemoderivados. A Hemobras (estatal criada pelo Ministério da Saúde no período em que seu titular era o pernambucano Humberto Costa) atraiu 24 indústrias de medicamentos, hemorderivados e cosméticos. O único empreendimento com capital integralmente privado do Estado – estaleiro Atlântico Sul, pertencente à Camargo Corrêa e à Queiroz Galvão – viabilizou-se graças a uma contrato com uma estatal: são 2,2 bilhões para a produção de dez navios-tanque, encomendados pela Petrobras.
A economia de Pernambuco ainda é frágil. Com a situação financeira precária, o Estado não tem recursos para bancar as contrapartidas aos investimentos federais. Só para construir a refinaria, precisará gastar R$ 422 milhões, o equivalente a toda a capacidade anual de investimento. Outro problema é a falta de mão-de-obra qualificada. Numa prova de Português e Matemática elementares e raciocínio lógico nas cidades do entorno de Suape, menos de 20% dos avaliados obtiveram a nota mínima. “As melhores vagas podem ser preenchidas por pessoas de outros estados”, diz Pierre Lucena, do Departamento de Administração da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Nada disso, porém, contém a onda de euforia. Segundo pesquisas, o pernambucano é mais otimista sobre o Estado que sobre o país. No empresariado, o clima não é diferente. m estudo recente, pela Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas, revelou que 63,3% dos industriais pernambucanos prevêem melhorias nos seus negócios até o fim do ano.
Fonte: acertosdecontas.blog.br